A Formação Continuada de Professores como caminho para a transformação social

O que justifica escolhermos um caminho em vez de outro? Quando pensamos para decidir sobre escolhas pedagógicas, de onde tiramos as ideias e convicções que nos levam para uma das diversas opções disponíveis? Por que fazemos as opções que fazemos?

Ao parecer que estamos decidindo “no automático”, escondem-se importantes questões sobre a nossa prática pedagógica, pois, em alguns momentos, nossas escolhas podem estar baseadas no simples fato de que vivenciamos tais práticas quando éramos crianças, “porque é desta forma que funciona uma escola”.

O professor Vitor Paro, em sua pesquisa que gerou o livro “Renúncia Escolar: renúncia à educação”, descobriu que os professores não aprendem a reprovar na sua formação profissional, no curso de graduação, mas sim desde crianças. Assim também é com a maioria das escolhas pedagógicas que fazemos como professoras.

A nós é dado, desde muito cedo, um modelo, uma ideia, um jeito de fazer escola que a gente vai levando para a vida toda.

Em outros momentos, buscando romper essa ideia quase que universal de escola, fazemos escolhas pedagógicas pelo fato de que já as fizemos outras vezes, em outros contextos, e “aquilo deu certo”.

Há também as decisões tomadas a partir do que lemos, estudamos, aprendemos com um outro colega, mas, ainda assim, por que escolhemos essas práticas pedagógicas e não outras?

Estamos permeados de marcas que são frutos de nossas experiências, e tudo isso nos compõe enquanto seres humanos.

Ao falarmos de educação, professores e professoras levam consigo saberes e marcas de sua experiência e, de maneira consciente ou não, fazem suas escolhas a partir de suas ideias e concepções.

Muitas vezes, a maneira como vivemos a nossa infância na escola deixa mais exemplos de como se fazer uma educação do que a graduação que nos faz ter o diploma para ser professora. Outras vezes, a forma como a sociedade enxerga as crianças, subestimando-as e oprimindo-as, toma mais espaço em nossas ideias e práticas do que os textos lidos de Piaget e Vygotsky.

Como diria Alberto Caeiro, é necessário “raspar a tinta com que me pintaram os sentidos”. Esse é, muitas vezes, o movimento cotidiano de quem pretende desenvolver uma educação democrática, pois não vivenciamos a democracia em nossas experiências escolares.

Lembrar quais tintas nos pintaram, para raspá-las e trocá-las, é um exercício, como diria Paulo Freire, de práxis educativa. É refazer-se a partir da reflexão sobre a prática. É entender que, assim como os sujeitos educandos são inacabados, nós, professoras, também somos.

É neste espaço, de refazimento das nossas concepções (num movimento constante e eterno), que entra o que chamamos de Formação Continuada.

Talvez o termo não seja o melhor, pois estamos sendo formados todos os dias e em todas as experiências da vida, mas, neste contexto, a formação continuada é aquilo que nos faz duvidar de nossas verdades, pensar caminhos que não foram vividos, traçar rotas que, somente a partir das nossas “marcas”, não seriam traçadas.

Chamamos aqui de formação continuada o processo de estudo de professoras acerca de seu próprio trabalho, buscando transformá-lo.

Mas é importante compreender que este é um movimento que precisa ser coletivo, pois, ao ler um texto que traz uma nova ideia, seja pedagógica, seja sobre o mundo, você dialoga e troca com outra professora, e os caminhos inicialmente pensados se ampliam e se cruzam, formando algo novo. Portanto, é um caminho de construção coletiva: você precisa do outro, seja aquele que escreveu o texto, o que dialogou com você, ou as crianças que, ao vivenciarem uma prática pedagógica, questionam e fazem novas propostas.

E esse algo novo vai para a sala de aula e, lá, transforma-se em outra coisa, diferente da inicial, melhor, mais complexa, mais real.

E depois você volta para o estudo, que te traz uma nova experiência, um novo diálogo, uma nova prática.

E isso pode acontecer com livros, textos, vídeos, conversas, experiências, mas, independentemente do formato, a formação continuada é algo que muda a gente de lugar.

E mudar de lugar exige esforço, empenho, é difícil! Não existe atalho, resumo da Inteligência Artificial, dicas de atividades prontas que tenham o mesmo efeito que a formação.

Isso porque ela promove uma alteração na nossa consciência, na forma de olhar o mundo e de tomar as decisões. Estudar é um caminho que te amplia, te deixa maior, te faz mais!

É como um exercício físico: em um primeiro momento, você tem resistência em fazê-lo, mas depois a recompensa é proporcional ao seu esforço.

Portanto, educadores e educadoras, se pretendem estabelecer práticas que transformam a sociedade, devem ter a formação continuada como um alicerce de sua atuação profissional.

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