5 de novembro de 2026 · André Rodrigues
A pedra de Adélia e a escuta das infâncias

Em uma de suas falas mais conhecidas, Adélia Prado escreve: “às vezes Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” Sua imagem poética nos provoca a pensar quantas vezes perdemos a capacidade de olhar para além do óbvio. Será que estamos escutando as crianças em suas infinitas linguagens sem reduzir suas experiências, perguntas e descobertas a algo apenas funcional? Temos pensado, cada vez mais, sobre a escuta das crianças, mas o que significa escutar para além da fala?
Diante de uma educação atravessada pela produtividade, o sensível frequentemente ocupa um lugar secundário. Talvez por isso muitas experiências da infância passem despercebidas no cotidiano escolar. A poça d’água que vira investigação, a sombra que provoca narrativas, a pedra guardada no bolso como um pequeno tesouro. Situações aparentemente simples, mas carregadas de imaginação, memória, curiosidade e produção de sentidos.
Trabalhar com crianças é conviver em um constante encontro entre diferentes formas de perceber o mundo: enquanto o adulto tende a buscar função, explicação e resultado, a infância frequentemente habita o imaginário, a curiosidade… a caixa de brinquedos:
O corpo carrega duas caixas. Na mão direita, a mão da destreza e do trabalho, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, a mão do coração, ele leva uma caixa de brinquedos…
Ferramentas são melhorias do corpo… aumentam nossa força, nos dão poder…
Mas há a outra caixa, na mão esquerda, a mão do coração. Essa caixa está cheia de coisas que não servem para nada. Inúteis.
Rubem Alves
Essa imagem de duas caixas nos mostram diferentes dimensões da vida: uma ligada à utilidade e outra àquilo que, embora não produza resultados imediatos, sustenta nossa experiência humana. A arte, o brincar, o tempo de observar as nuvens ou o cheiro do café passado na casa da avó – moradores da caixa de brinquedos, frequentemente considerada “inútil”. Mas é justamente aqui que a inutilidade poética revela o modo como aprendemos a associar valor apenas ao que pode ser medido, aplicado ou transformado em produtividade. Em uma lógica onde importância e utilidade parecem inseparáveis, torna-se difícil reconhecer a potência de experiências que não existem para cumprir uma função prática e imediata.
Me recordo de um projeto sobre raízes, onde as investigações das crianças chegaram a lugares pouco – ou nada – esperados…
Maria Clara observa em silêncio a pesquisa de Manuella e Cecília com o microscópio. Após um tempo, as meninas a convidam para experimentar essa investigação. Nesse momento, a Educadora registra as falas do que descobriam e Maria traz a hipótese:
– Prô, não dá pra ver a raiz do cabelo, porque fica por dentro da cabeça.
Arthur complementa o pensamento de Maria dizendo:
– A raiz do cabelo vem do pescoço, que a gente bebe água, ai cresce, cresce e aqui na testa tem alguma coisa que faz virar o cabelo.
A hipótese da pequena Maria é quase um brincar com o pensamento, é uma busca por descobrir que não parece preocupada em chegar rapidamente a uma conclusão “certa”, mas em elaborar uma teoria que sustente sua descoberta – uma “teoria provisória”, como nos recorda Carla Rinaldi e tantos outros educadores de Reggio Emilia. Enquanto isso, a professora escutava e registrava essas não a partir de um olhar preocupado em validar respostas corretas, mas como alguém que reconhece, nas hipóteses infantis, modos de pensar onde as coisas ainda não se reduziram apenas à sua utilidade – afinal, para as crianças, uma pedra raramente é apenas pedra.
Mas, não nos deixemos enganar: pensar a poética na educação não significa defender uma escola “romântica” ou desconectada do conhecimento. Significa perguntar que relações estamos construindo com o aprender. Na prática, isso aparece em escolhas aparentemente pequenas: o tempo dado às perguntas das crianças, a organização dos materiais, a possibilidade de explorar sem objetivos imediatos – e, dessa forma, nos aproximarmos da cultura infantil.
Talvez o desafio esteja justamente em sustentar tempos menos apressados na escola. Tempos onde uma raiz ou uma pedra não precisem imediatamente virar conteúdo, atividade ou produto, mas possam permanecer sendo observação, coleção, pergunta, experiência. E isso não significa ausência de intencionalidade pedagógica. Pelo contrário: exige do educador a disponibilidade para escutar e a sensibilidade para construir contextos onde os percursos permaneçam abertos ao espanto, à descoberta, ao imprevisível.
“Laís inclinou sua cabeça e franziu a testa, como se estivesse tentando desvendar o mistério que se desenrolava diante de seus olhos… Às vezes, um leve sorriso de admiração se formava em seus lábios, como se ela estivesse compartilhando um segredo com a natureza.”1
Como poderia uma professora observar a criança nesse compartilhar de segredos com a natureza se estivesse apenas voltada à validação de um conteúdo aprendido? Não, é necessário olhar para além da pedra; perceber nos traços de um sorriso e nas expressões do franzir da testa os indícios de algo que vai além do objeto de estudo e nos mostre as relações que a criança estabelece com esse objeto. São nessas relações – muitas vezes tão poéticas e subjetivas – que encontramos a potência de uma experiência educativa.
A pedra de Adélia me recorda constantemente dessa necessidade de sensibilizar o olhar – e a escuta. A buscar nas experiências cotidianas os elementos que compõem formas singulares de ser e estar no mundo; me recorda que muito temos falado sobre documentar as aprendizagens, mas que poucas vezes nos colocamos dispostos a ouvir para além do que pretendemos ouvir.
Cecília Meireles, Manuel de Barros, Conceição Evaristo… nomes por vezes ignorados durante a nossa formação docente, mas que nos mostram a importância da caixa de brinquedos; de uma escuta que não se encerra em uma perspectiva utilitarista e funcional; de um olhar atento às subjetividades e aos saberes sensíveis que permeiam as infâncias e suas narrativa. Talvez essa dimensão poética da escuta possa nos levar a reconhecer que a infância fala de muitas formas e que escutar é sempre mais do que buscar uma única resposta.
“Isso é o que a escola deveria ser: primeiro e acima de tudo, um contexto de múltiplo escutar.”
Carla Rinaldi
André Rodrigues é mestre em Música/Educação Musical pela UFMG e em Educação/Formação Docente pela UFLA. Tem se aprofundado no estudo sobre pensamento projetual e a abordagem de Reggio Emilia, com experiências formativas no Brasil, Itália e Peru, em instituições como Reggio Children, Remida Milano, La Bottega di Geppetto, La Casa Amarilla e Colégio Aleph. Atualmente, é atelierista e desenvolve pesquisas sobre culturas infantis, documentação pedagógica e experiência estética na educação.
1 Os dois fragmentos apresentados foram retirados da documentação pedagógica Raízes, produzida pela Escola Jardim dos Pequenitos em 2024.
Referências
ALVES, Rubem. Educação dos sentidos e mais. Campinas: Verus editora, 2005.
JARDIM DOS PEQUENITOS – Escola de Educação Infantil. Raízes. Santo André, SP: Escola Jardim dos Pequenitos, 2024. Documento pedagógico não publicado.
PRADO, Adélia Prado. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015. Poema “Paixão”.
RINALDI, Carla. Diálogos com Reggio Emilia: Escutar, investigar e aprender. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

































































