Violência contra a Mulher e Educação Infantil

Você se lembra em que momento da sua vida criou uma ideia ou um conceito sobre algo?

Por exemplo, em que momento da nossa constituição como seres humanos desenvolvemos o preconceito? Quando passamos a ter um gosto, uma preferência, uma opinião?

Você consegue datar quando compreendeu que mulheres e homens são tratados de maneira diferente? Percebeu isso aos 3, 4, 5, 12 ou 30 anos?

O fato de não percebermos quando determinados conceitos, dos quais não nascemos portadores, passaram a integrar nossa constituição enquanto sujeitos se deve a que eles são construídos desde o momento em que nascemos.

Tudo é “pedagógico”, pois tudo ensina algo. O jeito de falar, o tom, as escolhas de palavras, o cuidado ou a falta dele nos ensinam coisas sobre a vida. Não é na aula, é na experiência que aprendemos.

Nada é neutro, desde a escolha dos brinquedos e das brincadeiras com as crianças, dos materiais, das roupas, da maneira como se deixa o cabelo, até a forma como se organiza a própria vida. Tudo isso é repleto de significados que aprendemos durante nossa vivência e reproduzimos para as novas pessoas que passam a integrar essa sociedade.

Essas sutilezas vão formando comportamentos, gostos, preferências, jeitos e maneiras de estar no mundo, e a escola é um dos lugares em que os seres humanos aprendem como se manifestar diante da vida, dos amigos e como enxergam a si mesmos. Crianças passam horas em escolas, vivendo e aprendendo com colegas e adultos e, portanto, esse espaço tem um valor importante na constituição de nossa sociedade.

No entanto, precisamos considerar que há diferenças explícitas na maneira como meninas e meninos são tratados em espaços educacionais. Dialogamos com os meninos de uma maneira diferente da que falamos com as meninas, oferecemos sutilmente sugestões que enquadram as meninas em um lugar de submissão, medos e um tipo de comportamento esperado para aquela idade e para o gênero feminino. Assim como aos meninos, em geral, é oferecido o lugar de coragem, ousadia, tolerância aos erros e dominação.

Certa vez, uma amiga me disse que gostar da cor “rosa” era algo natural das meninas, pois a filha dela havia escolhido a mochila rosa, mesmo que a família não a incentivasse a usar essa cor.

Respondi a essa mãe com a seguinte pergunta: Se sua filha tivesse nascido em uma aldeia remota, longe da internet, da televisão ou de demais tecnologias que nos fazem ler o mundo de determinada maneira, ela teria escolhido a cor rosa?

Provavelmente não, pois não existe a possibilidade de nossas escolhas não serem fruto das experiências concretas que temos. Ninguém nasce gostando da cor rosa por ser menina. Isso se aprende vendo na internet, na TV, na escola, com outras meninas, com a mãe, com a professora e em tantas outras experiências que forjam as meninas a gostarem dessa cor.

Da mesma forma, a violência contra a mulher não se constitui de uma hora para outra, na idade adulta ou até mesmo na juventude. Ela se constitui desde as primeiras relações do sujeito com o mundo. É sutil, é natural, é da maneira como “sempre foi” e, portanto, não percebemos.

A desconstrução do que chamamos de machismo estrutural leva tempo, reflexão, diálogo e rompimento com verdades que achávamos que eram incontestáveis. E isso começa na primeira infância, pois, uma vez instaurado de maneira estrutural na formação do sujeito, seu processo de ressignificação é muito mais difícil.

Enquanto não discutirmos a necessidade de a educação infantil ser uma ponte para o rompimento de práticas de violência contra a mulher, assim como discutirmos com as famílias a necessidade dessa desconstrução, precisaremos tentar consertar aquilo que, já estruturalmente fundamentado nas crianças, acaba por reverberar em violência contra a mulher.

Eu já sofri violência, assim como algumas amigas minhas, familiares e tantas outras mulheres pelo mundo que, esculpidas para a aceitação das diferenças entre homens e mulheres colocadas como algo “natural”, somos submetidas a situações pelas quais não deveríamos passar.

Com a primeira infância, cabe mudarmos a rota de repetição do machismo estrutural. Mas, para isso, precisamos do exercício, como diria Paulo Freire, da ação-reflexão-ação, pois temos em nossa formação a naturalização das pequenas violências contra a mulher.

Pede-se mais comportamento das meninas, releva-se a “bagunça” feita pelos meninos, elogiam-se as roupas, o cabelo, a maquiagem das meninas e esquecem-se das artes por elas criadas, da coragem de subir no brinquedo do parque que antes elas não conseguiam, da inteligência de suas palavras ao ler o mundo nos projetos desenvolvidos na escola, das perguntas de investigação que fazem sobre tudo que experimentam.

Foca-se na beleza das meninas e na inteligência e coragem dos meninos. Meninas precisam ouvir: Você é inteligente! Você é capaz! Sua produção é muito relevante!

Mas, ao contrário, ouvem: Fale baixo, pegue sua boneca, feche as pernas, arrume seu cabelo, coloque uma saia, ajude seu amigo, obedeça, não questione.

A educação infantil, formada majoritariamente por mulheres, precisa ser um lugar que rigorosamente faça escolhas em que as meninas ocupem espaços de empoderamento e sintam que suas opiniões, desejos e necessidades são realmente importantes.

Não é apenas sobre dar “carrinho” para as meninas brincarem porque “mulher também dirige”; é sobre comportamento, livre expressão. E, para os meninos, precisamos incentivar o respeito às meninas e às suas ideias, que eles sintam que tanto meninos quanto meninas têm, na mesma proporção, importância em suas falas. Que os meninos percebam que não têm mais liberdade que as meninas, que são equivalentes, pois todos são tratados da mesma maneira. Que compreendam que suas ideias não são mais relevantes e que, independentemente do gênero, a diversidade deve ser respeitada em um clima de igualdade e respeito.

A estrutura que incentiva a violência contra a mulher está presente desde o primeiro momento em que ocupamos este mundo. Cabe a nós educar crianças que rompam com essas estruturas desde pequenas, para que não se tornem grandes.

Aline Paes de Barros é pedagoga e mestra em educação pela PUC-SP, doutora em educação pela UNICAMP. Fundadora da Quintal Pedagógico, atua na formação de professoras e gestoras da Educação Infantil, com foco em práticas participativas com autoria das crianças e adultos.

Próximo
Próximo

A transição de uma abordagem transmissiva para uma abordagem participativa