A transição de uma abordagem transmissiva para uma abordagem participativa
[atenção, este é um texto livre de uso de IA]
Profa. Dra. Aline Paes de Barros
Processos de transição geralmente surgem de uma necessidade que impulsiona a mudança. A necessidade da mudança vem antes da transformação em si; ela surge quando algo não se encaixa mais, quando o presente não responde às necessidades dos nossos objetivos e quando buscamos o sentido verdadeiro para nossas práticas, pois a reflexão sobre a ação leva à necessidade de mudança.
Esta questão é recorrentemente percebida por gestores escolares que pretendem transformar a prática educativa das escolas. Geralmente ela aparece ao perceberem que, quanto mais nos aprofundamos nas reais necessidades das crianças e na busca de desenvolver uma educação realmente significativa, uma abordagem transmissiva não é mais um caminho viável
As diferentes abordagens e suas consequências
As práticas pautadas em abordagens transmissivas são aquelas em que a criança ocupa um lugar de passividade, enquanto a professora tem um papel ativo, que pensa e aplica as tarefas que as crianças devem desenvolver.
As práticas transmissivas na educação infantil se consolidam em forma de controle, cópia, repetição, silêncio e, como consequência, possuem “resultados” que parecem se evidenciar com mais rapidez, como, por exemplo, as crianças copiarem seus nomes, aprenderem as letras e os números. No entanto, a reflexão acerca de tais resultados consiste em compreender que eles só foram possíveis a partir da cópia e da repetição, o que é inversamente oposto a um processo de verdadeira aprendizagem.
Se, de um lado, essas evidências são esperadas pelos adultos, por outro lado, ao estudarmos sobre o desenvolvimento das crianças e como o conhecimento verdadeiro se constrói, esses resultados são frágeis do ponto de vista da aprendizagem.
Já as práticas que se pautam no conceito de participação são permeadas por autonomia, criatividade, pensamento crítico, pesquisa, escuta, comunicação, linguagens, interação e diálogo. Seus resultados não são aqueles que se esperam a partir da cópia e da repetição, pois, neste sentido, o processo é muito mais importante do que o final.
É nesta comparação entre uma abordagem e outra que, muitas vezes, educadores e famílias se encontram buscando “resultados” de uma abordagem transmissiva, mas desenvolvem processos pedagógicos que pretendem ser participativos. Mas é preciso compreender que os dois caminhos não podem coexistir; é necessário fazermos escolhas!
Isso não significa que as crianças não terão aprendizados que são esperados que a escola desenvolva, mas que estes são muito diferentes daqueles decorrentes de cópias e repetições sem sentido
Alinhamento das expectativas sobre os “resultados”
Neste contexto, é preciso ressignificar não apenas os processos, mas a maneira como entendemos os resultados destes processos. Não se busca, em uma abordagem participativa, que as crianças desenhem “dentro da linha”, mas que expressem seus pensamentos por meio do desenho. E, neste contexto, o resultado final também é alterado.
Assim como não se espera que as crianças escrevam todo o alfabeto, mas que desenvolvam hipóteses sobre o processo de escrita, testem suas hipóteses e cheguem às suas próprias conclusões. Neste contexto, nosso objetivo é um aprendizado real, que leva tempo e não é uma receita pronta para servir de vitrine aos adultos que esperam ansiosamente pela escrita formal da criança.
Evidentemente, este processo precisa de um tempo para que as pessoas, além de compreenderem as opções pedagógicas da participação, possam “romper” com suas próprias experiências enquanto “alunos”. Tivemos, em nossa história, um processo de compreensão da construção da aprendizagem muito ligado às ideias de transmissão, em que um adulto definia os caminhos que seguíamos sem pensar sobre eles.
A nós, enquanto alunos, era dado apenas o dever de ouvir e não falar, copiar e não criar, sentir e não expressar, pensar e não verbalizar, questionar sem poder perguntar. Tais experiências apoiaram a nossa constituição enquanto sujeitos e também a maneira como olhamos as crianças.
Porém, bastam alguns dias de observação intensa sobre como as crianças se relacionam com o mundo, consigo mesmas e com os colegas para compreender a maneira como constroem seu conhecimento, e este caminho nada tem a ver com cópia e repetição, mas com experiência.
Se pretendemos, então, fazer essa transição, será necessário revisitar as concepções dos adultos envolvidos neste processo, questionar a maneira como fomos ensinados, compreender quais foram os nossos aprendizados durante a vida e de que forma eles ocorreram.
Como fazer a mudança?
É importante que se reserve um tempo (bastante tempo) para escutar as crianças, anotar suas falas, hipóteses e questões, e poder refletir sobre essas anotações, pensando novas formas de nos relacionarmos com elas. A essa tarefa damos o nome de Documentação Pedagógica.
É necessário também compreender nossa concepção acerca dos conceitos de participação, democracia, escuta e autoria. Participação não se caracteriza pelas mãos carimbadas em cartazes, orientadas pelos adultos, mas é um processo de autoria. Inspirados no professor Vitor Paro, reiteramos que é importante possibilitar às crianças processos em que elas se permitam ser sujeitos, autores!
Este caminho de transição exige estratégia, planejamento, formação, repertório prático, rompimento de concepções, práxis educativa. Aos gestores, cabe a mediação de processos que busquem a construção de uma nova abordagem no cotidiano.
Este processo se inicia pela compreensão da comunidade educativa, perpassa a construção de uma proposta pedagógica consistente, coletiva, intencional e viável; se aprofunda a partir de processos formativos consistentes, com repertório prático e aprofundamento teórico; e se consolida com espaços e materiais que dialoguem com essa ideia para, assim, transformar a prática, o cotidiano e as pessoas.
Se você está buscando ajuda para fazer a transição da sua escola de uma prática transmissiva para uma abordagem participativa, não deixe de conhecer o nosso projeto Arquitetura Pedagógica.